Neste recomeço...
Começo a amadurecer a idéia de registrar o ainda tímido lastro cultural que penso estar construindo... Mais como registros, que provocam o esforço e o treino de olhar para dentro, descobrir quem realmente sou na escrita, ao me libertar do peso das ditatoriais composições de redação que se sedimentaram sobre mim ao longo da vida...
Não desejo tanto a segurança e a sobriedade, mas o risco do vôo que assegura do alto as visões mais privilegiadas e deslumbrantes do mundo que está abaixo...
O escrever livremente não é fácil, pois tudo o que privilegiamos, desde o tema, o foco do olhar até o agrupamento de idéias de alguma forma dá pistas do que somos. Ou do que queremos ser na escrita... Como já denunciado por Fernando Pessoa ao escrever que “o poeta é um fingidor. Finge tão completamente. Que chega a fingir que é dor. A dor que deveras sente.”...
Este blog me ensinou a observar o mundo de outra maneira, tudo agora é passível de um olhar reflexivo, de análise intertextual, e assim vou me aconchegando em minha colcha de retalhos do texto cultural, anunciada por Proust.
Pela união de pequenas partículas de pensamentos, no esforço de expressar o indizível, retendo palavras que transpareçam a magia de um momento por idéias que se ligam aos sentimentos, que se aglomeram no papel, que figuram nossa pequena ilusão, um feixe tímido de esperança de doar ao mundo a luz de nossos pensamentos.
E no desejo de me esquivar do traço carregado, lembro-me com especial admiração de Ítalo Calvino no livro ”Seis propostas para o novo milênio”. Em que se questionava ele, sobre como, subtrair o peso de sua escrita, de modo que suas características mais marcantes e graciosas fossem a leveza, a rapidez, exatidão, visibilidade, a multiplicidade e a precisão... Penso então, como alcançar o mesmo resultado nas mídias digitais, ainda mais versáteis e leves? Ìtalo Calvino faleceu antes que pudesse concluir a sexta proposta anunciada no título.
Não a conheceremos, assim como não conhecemos todo o longo percurso pelo qual nos conduzirá a escrita... E neste caminho sem volta, não há atalhos, a escrita é um esforço continuo, lento e doloroso, um processo de reescritas, como o escolhido pelo escritor francês, Gustave Flaubert, com seu Madame Bovary, que obcecado pela busca da palavra perfeita, dedicou toda sua vida ao aperfeiçoamento de sua arte...
A sexta proposta não apresentada por Calvino constitui-se quase uma ironia que precede a metalinguística da beleza e da perfeição que tanto desejamos, mas que não sabemos se um dia alcançaremos... Nossas escolhas e dedicação serão os responsáveis por nos conduzir à realização.... Ou a uma obra inacabada.
Escrito por Fernanda Ayres às 06h49
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Em vôos de perdição
Vagando pelas noites escuras, cercado pela profunda e misteriosa mata, iluminado apenas pela colcha de estrelas, sob o céu negro e sombrio, ainda se pode ver este animal cruzar o céu, solitária e fastidiosamente...
Conta-se, que já foi dos animais mais vivos da mata, até cavar seu próprio destino de solidão, que o encerra no isolamento e num desgosto sem fim.
Isolado dos homens, recorda-se do tempo em que fruía a perfeita integração...Podia vê-los de perto, viver com eles, ser-lhes próximo como animal de estimação. Que de tanta estimação passou a querer ser gente. Queria ser a mulher. Passou desejar a cada momento, com maior intensidade, seu corpo, suas emoções, sua elevação de mente e espírito.
A superioridade da mulher perturbava-lhe crescentemente as intenções. Passou instintivamente a buscar um momento em que pudesse destruí-la. Mas não havia como fazê-lo, seu físico, reforçava-lhe sua condição de inferioridade, e rastejava, e rastejava novamente. Quis então rebaixá-la a sua condição. Experimentaria ela, igualmente a humilhação e vertiginosa dor daqueles que libertam seus mais subterrâneos instintos, sucumbindo às vozes sedutoras da vida e do destino.
“Se eu tivesse asas, conseguiria ao menos alcançá-la em estatura para lhe falar.”
Mais do que depressa correu. Espreitou uma coruja. Atacou-a. Comeu. E esperou. Trocou de pele.Nasceram-lhe asas de coruja, a crescente aversão pela luz e a propensão para langorosamente serpentear a escuridão do céu.
Ao pé do ouvido da mulher voou, murmurou-lhe, despertou-lhe desejos encobertos, seduziu-a.
Sua desejada elevação da mente e do espírito entrega-se aos instintos carnais, às emoções. Ela sucumbiu. Tombou. Odiou por toda vida a serpente. Baniu-a do convívio humano... Ainda hoje, a sombria serpente vagueia tediosamente lânguida e errante, prenunciando a libertação dos anseios obscuros, denunciando, a cada vôo em asas de perdição, o que há de pior nos instintos, aquilo que iguala bichos e homens.
Escrito por Fernanda Ayres às 00h11
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