Além da moda ou aquém da arte?
A mulher de cabelos compridos, penteia-se, arruma-se, maquia-se, prende, solta, desarruma, tira a maquiagem, corta, mais curto, até que raspa e com uma peruca pronto, já está prestes a recomeçar no cerco das pressões sociais. Por Cris Bierrembach o vídeo Identidade representa a angústia existencial, o eterno conflito entre a essência e a aparência, entre o que se é e o que se deseja ser... A obra reflete a moda no limiar de suas potencialidades críticas apagando a tênue linha de separação da arte...
Ricardo Oliveros, produtor, editor e curador diz que a moda inserida no contexto cultural deve ser entendida como um sistema que afirma o seu tempo, respondendo às velozes mudanças do mundo midiático e tecnologizado, com precisão maior e em menor tempo do que as outras linguagens poderiam executar, seja a literatura, fotografia pintura etc.
E justamente entendida como sistema, passa a ter uma nova função, a de aprofundar o olhar, de levar seu público além, de gerar reflexão como arte, não mais por sua função usual, mas enquanto objeto e expressão artística.
Conflitos e caminhos, exposição de moda que insere o Sesc no circuito da moda como arte, levou-me a refletir com critérios mais apurados sobre o deslocamento destas funções artísticas... Sete duplas de estilistas com estilos distintos têm que criar cada uma, um look, apenas um modelo a ser exibido na exposição, o processo todo é gravado por um videomaker, sempre super talentoso e apaixonado, como Daniel Lima ou Luiz Duva... Suas edições são o verdadeiro êxtase criativo em cena.
A proposta, curadoria de Jum Nakao e Kiko Araújo, era simbolicamente a representação da diversidade cultural dos países mediterrâneos, e deste ponto, tecer a possibilidade de diálogos, de apaziguar conflitos, gerar caminhos... E, além, traçar um paralelo entre a diversidade brasileira e a mediterrânea.
Da idealização a proposta desafiadora, enfraqueceu-se no caminho da realização...
As gravações do processo de criação o qual deveria trazer a embasamento crítico ou consciência artística do projeto, denuncia o desencontro latente de objetivos, a criação da obra, não dialoga com a proposta dos curadores, conformando-se a estilistas que se restringiram à criação de um modelo de roupa passível de aceitação mútua.
Em denso contraponto, a exposição Viés, “Moda e arte um cruzamento possível de linguagens” realizada este ano na Galeria Vermelho, reuniu diversos artistas como Rafael Assef, Nicolás Robbio, Maurício Ianes, Marilá Dardot a estilistas e mostrou despretensiosamente, que estilistas podem chegar a criações artísticas quando deslocam sua criação do lugar comum para o campo da arte.
Estes são os fios condutores que bem entrelaçados podem resultar na trama perfeita entre a arte e a moda.
E disto já temos exemplo desde a “Experiência nº 3”, ou o New look - traje para o homem dos trópicos de Flávio de Carvalho, dos Parangolés, de Hélio Oiticica que criava uma nova visão de como o ser humano e a arte podem compor uma obra ao integrar-se, da obra singular de Lygia Clark e ainda hoje dos estilistas que fazem de seu desfile, uma verdadeira instalação, como Karlla Giroto que com sensibilidade estética e crítica, supera a dinâmica das massas, num protesto planejado e na resistência pelo estranhamento...
A dessacralização da arte vale a pena desde que nela haja implícita a reflexão, uma leitura crítica e diferenciada no processo criativo... Como quem extrapola o comum e o gosto das massas para se aventurar e se libertar pela desconexão e pelo rompimento dos códigos...
http://mixbrasil.uol.com.br/cultura/panorama/vies/vies.asp e http://chic.ig.com.br/site/secao.php?secao_id=2&materia_id=2731
Escrito por Fernanda Ayres às 01h22
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